Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia
SINTA

Medicina Veterinária no século XXI:

Tomografia Computadorizada e Ressonância Magnética

 

Introdução

            Os recentes avanços tecnológicos relacionados ao diagnóstico por imagem associados ao íntimo contato dos animais de estimação com os seres humanos têm permitido a obtenção do diagnóstico definitivo de diversas doenças anteriormente não caracterizadas, bem como a escolha terapêutica mais apropriada e a obtenção de um prognóstico mais confiável.

            Na Medicina Veterinária do século XXI, diversas instituições de ensino e pesquisa por todo o mundo estão cada vez mais adquirindo modernos equipamentos de diagnóstico por imagem, como a tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM). No Brasil, são poucas as faculdades de Medicina Veterinária que possuem TC e nenhuma adquiriu até o presente momento a RM, com exceção de alguns hospitais veterinários particulares. A FMVZ – UNESP – Botucatu, além da obtenção de equipamento de TC helicoidal singleslice em 2008[1], foi a pioneira na aquisição de equipamento de RM de baixo campo em 2012[2], realizando desde então exames de rotina e pesquisas em animais atendidos no Hospital Veterinário.

Por serem métodos de imagem ainda pouco difundidos no Brasil, grande parte dos médicos veterinários desconhecem suas reais aplicações e indicações, bem como os princípios físicos e de formação de imagem de cada método, sendo frequente em nossa rotina o encaminhamento de animais com pedidos controversos e com suspeitas de enfermidades em que os métodos não são indicados no auxílio do diagnóstico.

Com o objetivo de difundir esse conhecimento, principalmente entre veterinários das demais áreas, nesta página foram incluídas informações que podem esclarecer dúvidas sobre a realização desses procedimentos, além de auxiliar no momento da solicitação dos exames.   

 

O que é Tomografia Computadorizada?

 

A tomografia computadorizada é uma técnica que utiliza radiação ionizante para posterior obtenção de imagens seccionais sequenciais em espessuras variáveis (HAAGA & ALFIDI, 1983). As imagens tomográficas, que apresentam uma grande variedade de densidades teciduais e consequentemente, uma maior resolução de contraste, são resultantes da diferença de absorção dos raios-x pelos tecidos do corpo que sensibilizam os detectores presentes no interior do gantry dos equipamentos tomográficos (TIDWELL, 2010; HAAGA & ALFIDI, 1983). Esta técnica, além de possibilitar a reconstrução das imagens em diversos planos (sagital e dorsal), através de um recurso tomográfico (reconstrução multiplanar) ou por meio da alteração do posicionamento do animal (quando possível), e ainda tridimensionalmente, apresenta outra vantagem referente à possibilidade de ajuste do contraste e do brilho através do controle da amplitude (window width) e do nível (window level) da janela, respectivamente, de modo a melhorar a visibilização das estruturas (JONES, 2004).

 

Quando solicitar a TC:

 

            Em nossa rotina, a TC é indicada, principalmente, para as seguintes suspeitas:

  • Tumores intracranianos (1)
  • Acidentes vasculares cerebrais (hemorrágicos em fase aguda (2) e isquêmicos)
  • Algumas doenças encefálicas congênitas (hidrocefalia (3))
  • Enfermidades da cavidade nasal (tumores (4), rinites (5) e sinusites (6))
  • Afecções de bulas timpânicas (otite média/interna (7), colesteatoma (8), neoplasia)
  • Distúrbios da glândula tireóide (tumores e hiperplasias (9))
  • Enfermidades torácicas (lesões pulmonares (10), neoformações torácicas (11), avaliação mediastinal (12), de espaço pleural e pleuras (13), de linfonodos e da parede torácica)
  • Afecções abdominais (shunts portossistêmicos (14), tumores (15), obstruções do sistema urinário – urotomografia (16))
  • Lesões ósseas (espondilomielopatias, hemivértebras (17), fraturas (18), tumores (19), displasias de cotovelo (20))
  • Compressões medulares ao exame simples (planejamento cirúrgico de protrusões/extrusões de discos calcificados (21)) e por mielotomografia (avaliação do grau de compressão medular sem determinação da causa de base)

 

O que é Ressonância Magnética?

 

A ressonância magnética também é um exame que proporciona a obtenção de imagens seccionais sequenciais em espessuras variáveis, assim como a tomografia computadorizada.  Porém, nesta técnica, em que não há a utilização de radiação ionizante, um forte campo magnético e pulsos de energia de radiofrequência levam os tecidos a emitir sinais de energia característica após a ocorrência do alinhamento do hidrogênio que está amplamente distribuído pelos tecidos biológicos (CURRY et al., 1990). Esta modalidade de imagem, além de apresentar uma alta sensibilidade a discretas alterações nas propriedades químicas dos tecidos moles, também possibilita a obtenção de imagens em todos os planos desejados (transversal, sagital e dorsal) a partir de qualquer posicionamento (JONES, 2004). 

 

Quando solicitar a RM:

 

Em nossa rotina, a RM é indicada, principalmente, para as seguintes suspeitas:

  • Tumores intracranianos (22);
  • Acidentes vasculares cerebrais (isquêmicos (23) e hemorrágicos);
  • Alterações encefálicas inflamatórias (meningoencefalites (24));
  • Edema cerebral (25);
  • Doenças encefálicas congênitas (hidrocefalia, hipoplasia cerebelar, síndrome de budd-chiari);
  • Alterações encefálicas degenerativas (atrofia cerebral);
  • Distúrbios da glândula tireóide (tumores e hiperplasias)
  • Alterações de medula espinhal (mielomalácia, siringo\hidromielia, tumores, edema, compressões (26));
  • Alterações de disco intervertebral (degeneração (27), protrusões e extrusões (27));
  • Alterações do sistema musculoesquelético (rupturas ligamentares, degeneração\ruptura meniscal, lesões musculares e tendíneas, edema ósseo);
  • Lesões em nervos periféricos (tumores, neurites, granulomas (28));

 

Uso do contraste na TC e RM:

Lesões vasculares e/ou com ruptura da barreira hematoencefálica (em casos de exames encefálicos) podem ser melhor identificadas e avaliadas utilizando-se um meio de contraste intravenoso nos exames de TC e RM uma vez que sofrem captações de contraste (STICKLE & HATCHCOCK, 1993; TUCKER & GAVIN, 1996).

            No exame contrastado, um meio de contraste é administrado em uma veia periférica através de um cateter. Na tomografia computadorizada, o meio de contraste iodado, tanto o iônico quanto o não iônico, pode ser utilizado no procedimento. Dentre esses, uma maior ocorrência de efeitos colaterais ocorre quando se utiliza o contraste iodado iônico devido à grande pressão osmótica exercida por esse meio de contraste (POLLARD E PUCHALSKI, 2011).    

            As reações secundárias ao meio de contraste são classificadas em: aguda, tardia ou sistêmica. Esse primeiro tipo de reação que ocorre dentro da primeira hora após a administração de contraste, pode ser subdividido ainda em discreto, moderado e severo, sendo esse último de rara ocorrência em animais. Vômito, ansiedade, hipotensão e parada respiratória e cardíaca são os sinais que os pacientes podem apresentar na reação adversa, sendo que os efeitos mais observados nos animais são hipotensão ou hipertensão em associação a broncoespasmo. A reação tardia, que foi relatada somente em humanos, geralmente envolve erupções cutâneas, ocorrendo dentre o período de uma hora a sete dias após a administração de contraste. Na reação sistêmica, o efeito está relacionado à nefrotoxicidade e por essa razão, o contraste iodado é contraindicado em animais desidratados, com doença cardíaca e/ou severo comprometimento renal (POLLARD E PUCHALSKI, 2011).   

            Na ressonância magnética são utilizados contrastes a base de gadolínio, que também podem ser administrados no procedimento tomográfico uma vez que são radiodensos. Os contrastes a base de gadolínio apresentam uma baixa taxa de reações agudas. Estudos realizados com cães e gatos constataram que os efeitos hemodinâmicos adversos do gadolínio são menores que os observados com os agentes iodados iônicos e similares aos verificados durante a utilização do contraste não iônico (POLLARD E PUCHALSKI, 2011).

 

Exames necessários:

 

            Todos os animais devem ser submetidos à anestesia geral ou sedação para o procedimento de TC e RM, portanto de faz necessário realizar alguns exames prévios de modo a avaliar a condição do animal e a possibilidade de submetê-lo à anestesia:

  • Hemograma
  • Bioquímico (função renal e hepática)
  • Radiografia de tórax
  • Avaliação cardíaca, incluindo eletrocardiograma
  • Ecocardiograma, conforme sugerido durante avaliação cardíaca

Nos casos em que não é indicada a anestesia do animal e a realização do exame é imprescindível, a TC e a RM sem a administração de contraste intravenoso podem ser feitas caso o animal esteja em estado semicomatoso ou permaneça imóvel com o auxílio de um recurso que restrinja sua movimentação. As imagens adquiridas dessa forma não são ideais uma vez que não apresentam uma adequada simetria, porém sempre fornecem informações úteis para o diagnóstico.

 

Contraindicações:

  • Artefatos por implantes metálicos: essas estruturas (pinos intramedulares, placas, parafusos e próteses metálicas) promovem um artefato de imagem que prejudica a avaliação dos tecidos adjacentes à TC (29). Na RM (30), a força que o campo magnético exerce sobre o material metálico leva a perda da intensidade de sinal e distorção da imagem impedindo sua avaliação. Neste último método, microchips e implantes de fios de ouro também resultam nesses artefatos.

  • Nefrotoxicidade pelo meio de contraste: a importância do meio de contraste em animais com insuficiência renal e/ou severa desidratação deve ser avaliada cuidadosamente, uma vez que determinadas suspeitas clínicas não requerem a utilização de contraste para sua confirmação.

 

Vídeo Explicativo

 


Referências:

 

GAVIN, R. P., BAGLEY, R. S. Practical Small Animal MRI. 1 ed. Iowa: Wiley-Blackwell, 2009. v. 1, p. 13-18.

HAAGA, J.R.; ALFIDI, R.J. Computed tomography of the whole body. Toronto: The C.V. Mosby company. v.1, 512p. 1983.

JONES, J. C. Neuroimaging. In: VITE, C. H. Braund's Clinical Neurology in Small Animals: Localization, Diagnosis and Treatment. New York: International Veterinary Information Service, 2004. 

OHLERTH, S., SCHARF, G. Computed tomography in small animals – Basic principles and state of the art applications. The Veterinary Journal, v.173, p.254–271, 2007.

POLLARD, R.; PUCHALSKI, S. CT contrast media and applications. In: Schwarz T; Saunders J. Veterinary computed tomography. Oxford: Wiley-Blackwell, 2011, p. 57-65.

STICKLE, R. L.; HATCHCOCK, J. T. Interpretation of computed tomographic images. Vet Clin North Am (Small Anim Pract), 1993, v. 23, n.2, p.417-35.

TIDWELL, A. S. Princípios da tomografia computadorizada e da imagem por ressonância magnética. In: THRALL, D. E. Diagnóstico de Radiologia Veterinária. 5 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010. p. 50-77.

TUCKER, R.L., GAVIN, P.R. Brain Imaging. Vet Clin North Am (Small Anim Pract) 1996;26(4):735-758.

 



[1] Modelo SCT-7800TC; marca Shimadzu do Brasil comércio LTDA

[2] Modelo VET-MR Grande, de 0,25 Tesla; marca Esaote Healthcare do Brasil

Atualizada em 10/05/2013 às 15:17 - Responsável: Ariel Barcellos