Dezembro de 1998 - ano 101, nº 627

OVINOS E O CAPIM ARUANA: A ASSOCIAÇÃO IDEAL
Luiz Eduardo dos Santos¹
Eduardo Antonio da Cunha²
Mauro Sartori Bueno¹
Domingos Sanchez Roda²
1 Pesquisadores do Centro de Nutrição e Alimentação do Instituto de Zootecnia - IZ
2 Pesquisadores do Centro de Etologia, Ambiência e Manejo - IZ

 

A ovinocultura vem apresentando crescimento no estado de São Paulo. Nos últimos anos tem se verificado não só um aumento no efetivo dos rebanhos, mas também no número de propriedades envolvidas nessa atividade. A principal causa disso é o aumento na demanda de carne ovina, mais especificamente da carne de cordeiro, verificada nos centros de maior consumo, como a região da Grande São Paulo e ainda em cidades de maior porte do interior, tais como Campinas, Ribeirão Preto, Sorocaba, Bauru e São José do Rio Preto.

Esses mercados vêm sendo atendidos, na sua maior parte, por produto proveniente do Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina, caracterizado na sua maior parte por carcaças de cordeiros puros ou mestiços de raças produtoras de lã, tais como Corriedale, Ideal e Merino. Ou ainda produto proveniente dos estados nordestinos sendo, nesse caso, de animais com predomínio de sangue de raças deslanadas como a Santa Inês e Morada Nova.

Tanto num caso como no outro, a qualidade das carcaças comercializadas nem sempre é a ideal, em termos de características desejadas pelo mercado consumidor, que valoriza a carcaça de animais jovens, abatidos com idade inferior a 150 dias e peso vivo entre 28 a 32 kg. Essas carcaças têm que apresentar uma proporção significativamente maior do corte traseiro em relação ao dianteiro e costilhar, além de apresentar uma boa distribuição de gordura de cobertura que, sem ser excessiva, deve envolver boa parte da carcaça, protegendo-a contra a perda acentuada de umidade. A gordura entremeada na carne, em níveis moderados, também é necessária para garantir a maciez e o seu sabor característico.

Normalmente, a carne ofertada no mercado, tanto a originária do sul como a do nordeste, pela própria característica genética das matrizes utilizadas e ainda pelos sistemas de criação adotados, normalmente não atendem a essas exigências. São carcaças imaturas, sem adequada proporção de gordura, provenientes de animais de baixo peso. Ou, então, quando em cortes maiores, provenientes de animais mais velhos, resultando em carcaças com excesso de gordura, tanto de cobertura, como entremeada nos tecidos a carne com menor maciez.

Essa carne, apesar de não ter a qualidade desejável, encontra boa demanda e, em função da limitação da oferta, ainda alcança preços compensadores. Todavia, em função da distância entre as regiões produtoras e o local de consumo e por tratar-se de transporte em condições especiais (sob refrigeração), o custo é relativamente alto.

Já a carne produzida em São Paulo ou em estados vizinhos, como Paraná e Minas Gerais, seja em função da proximidade do mercado consumidor, seja em função de fatores ambientais bastante favoráveis à produção ovina, em especial para as raças de corte, pode apresentar qualidade superior a um custo bem menor. Para isso concorrem a maior precocidade e produtividade obtidas com as raças específicas para corte, tais como Ile de France e Suffolk, já bastante difundidas, bem como a Poli Dorset, de introdução mais recente. E ainda as situações de pastagens mais produtivas e com manejo mais intensivo, que possibilitam a utilização de lotações sensivelmente mais elevadas que aquelas observadas no sul ou no nordeste.

O sistema de produção que melhor resultado vem apresentando em nosso meio, prevê a manutenção das matrizes a pasto até o momento da parição, quando então mãe e crias, são confinadas em instalações simples, com piso em chão batido forrado com cama (bagaço de cana, serragem ou maravalhas de madeira). A alimentação básica se consiste em volumoso (silagem ou capim picado) de boa qualidade, fornecido à vontade, e concentrado em qualidade e quantidade determinadas pelo valor nutritivo do volumoso e da exigência nutricional dos animais (dependente do peso vivo da matriz e do número de idade das crias).

O período de aleitamento varia de 45 a 90 dias, dependendo da raça nível alimentar, potencial genético das matrizes e situação de mercado, sendo que após o desmame as matrizes voltam ao pasto enquanto as crias, em esquema de acabamento, com alimentação reforçada, para abate aos 100 a 120 dias de idade com peso vivo médio de 28 a 32 kg. As crias retidas para reposição no plantel permanecem em confinamento até os 5/6 meses, quando então começam a ter acesso gradativo ao pasto.

O sucesso no empreendimento exige que se trabalhe com uma eficiência reprodutiva alta em termos de fertilidade, prolificidade e pequeno intervalo entre partos, garantindo um elevado número de crias para abate. Depende também da utilização de matrizes e, principalmente, reprodutores de elevado potencial zootécnico, de maneira a se ter crias precoces e com altos níveis de ganho de peso. E ainda da obtenção de altas taxas de lotação nas pastagens, possibilitando o trabalho com o maior número possível de matrizes.

Finalmente, depende da utilização de forrageiras de alto valor nutritivo e que atendam adequadamente às exigências nutricionais das matrizes, mesmo em gestação.

Normalmente as forrageiras mais indicadas para ovinos são aquelas de hábito estolonífero (prostrado), tais como Coast Cross, Tiftoris e Estrelas (gênero Cynodon), Pangola (gênero Digitaria), Pensacola (gênero Paspalum). Essas gramíneas atendem relativamente bem às exigências dos ovinos e seus hábitos de pastejo peculiares, tais como: resistência à seleção intensa e ao pastejo rente ao solo; porte médio a baixo, inferior a 1,0 metro, enraizamento intenso e profundo, boa produtividade e valor nutritivo, incluindo-se aí a boa concentração em nutrientes, alta digestibilidade e, principalmente, alta aceitabilidade pelos animais.

Essas forrageiras apresentam, no entanto, dois aspectos negativos: a maioria apresenta propagação por mudas, o que dificulta e encarece a formação de áreas maiores de pastagens. E, mais importante, em função do hábito de crescimento estolonífero; formam uma massa vegetal fechada que, mesmo quando rebaixada, impede a penetração da radiação solar e mantém um microclima favorável às larvas dos helmintos. Isso torna extremamente difícil o controle da verminose, principal problema sanitário para os ovinos, sendo essa dificuldade potencializada quanto maior for a lotação das pastagens, podendo chegar à inviabilização da atividade.

Outras forrageiras normalmente utilizadas em pastagens para bovinos têm utilização dificultada para ovinos ou por apresentarem porte excessivo, fazendo com que os animais pastem só nas beiradas, resultando em super pastejo nessa área e sub pastejo nas áreas internas do pasto ou por não tolerarem o pastejo baixo e pisoteio intensivo promovido pelo ovino. Nesse grupo estão incluídas a maioria das gramíneas dos gêneros Panicum (colonião), Chloris (rhodes) e Setária, que ainda tem o agravante da baixa aceitabilidade. As gramíneas do gênero Brachiaria, apesar da vantagem de propagação por semente, apresentam problemas de baixo valor nutritivo, hábito de crescimento prostrado, dificultando o controle da verminose, sendo ainda esses aspectos agravados pela maior possibilidade de ocorrência de foto-sensibilização.

Dentro desse quadro temos o capim Aruana (Panicum maximum cv.IZ-5) que vem sendo utilizado na Unidade de Ovinos do Instituto de Zootecnia, em Nova Odessa (SP), há mais de 5 anos, em pastejo rotacionado com ovinos.

 

Cultivar aruana

O aruana é um cultivar do colonião introduzido no Instituto de Zootecnia, em 1974, através de sementes provenientes da África, sendo selecionado a partir daí pelos técnicos da então Seção de Agronomia de Plantas Forrageiras, tendo sido lançado comercialmente em 1995.

Dentre as características mais interessantes desse cultivar, pode-se destacar:

a) Porte médio (adequado ao ovino), atingindo aproximadamente 80 cm de altura.

b) Grande capacidade e rapidez de perfilhamento, com um bom número de gemas basais rebrotando após cada ciclo de pastejo.

c) Boa capacidade de ocupação da área de pasto, não deixando áreas de solo descoberto, evitando o praguejamento e auxiliando no controle da erosão.

d) Propagação por sementes (formação mais fácil, rápida e de menor custo).

e) Boa produção de sementes, garantindo o restabelecimento rápido da pastagem em caso de necessidade de recuperação (após eventuais "acidentes" como queima, geadas, pragas ou degradação por falha de manejo).

f) Boa tolerância ao pastejo baixo (rente ao solo) promovido pelo ovino, o que possibilita a adoção dessa técnica de manejo como parte da estratégia no controle de helmintos parasitas (favorecendo a exposição de larvas às intempéries climáticas (radiação solar e vento).

g) A arquitetura foliar ereta e aberta, típica das forragens cespitosas (em touceiras), propicia uma maior incidência de radiação solar e maior ventilação dentro do perfil da pastagem. Isso força a migração das larvas para a base do capim logo às primeiras horas da manhã, após a secagem do orvalho, favorecendo o controle da verminose.

h) Alta produtividade de forragem, com 35 a 40% da produção anual ocorrendo no "inverno" (período seco do ano).

i) Excelente aceitabilidade pelos animais.

Durante o período em que o Aruana está em uso na Unidade de Ovinos, mostrou-se relativamente tolerante à geadas e aos ataques de cigarrinha. Tendo sido feito nesse período o acompanhamento da sua produtividade, com bons resultados, obtendo-se valores médios da ordem de 18 a 21 ton de MS/ha/ano. A boa qualidade da forragem foi atestada pelo excelente desempenho obtido com fêmeas ovinas das raças Ile de France e Suffolk, em gestação ou em crescimento.

A área de pastagem utilizada é subdividida em piquetes (5), possibilitando um manejo rotacionado no qual cada pasto é utilizado por um período de 9 a no máximo 15 dias, tendo um período de repouso de 40 a 60 dias, dependendo da disponibilidade de forragem e da situação do "stand" da forrageira no piquete após cada ciclo de pastejo.

No "verão" (período das chuvas) cada piquete é subdividido com auxílio de cerca eletrificada móvel, sendo movimentada em faixas, liberando-se 1/3 da pastagem a cada período de 3 a 5 dias.

A elevada produtividade e alto valor nutritivo do Aruana é dependente de uma adequada reposição de nutrientes no solo, que é feita anualmente, através da fertilização química com N, P, K e Ca, com base em análise de solo e, eventualmente, da forragem. A necessidade média de reposição tem sido de 50 kg/ha de fósforo e 30 kg/ha de potássio. A correção da acidez do solo foi feita uma única vez (3 anos após a formação da pastagem) com a distribuição de 1000 kg/ha de calcário, em área onde foi introduzida leguminosa (soja perene). A reposição de P, K e Ca foi feita a lanço, normalmente no início do período das águas. A adubação nitrogenada correspondeu a 150 kg/ha de N tendo sido utilizado o Nitrocálcio como veículo. Dessa quantia, 100 kg/ha foram distribuídos a lanço no final do período das águas e os restantes 50 kg/ha junto com o restante da adubação (início do período das águas subsequente).

Em razão desses aspectos tem sido possível a utilização de lotações altas na pastagem, da ordem de 35 cab/ha/ano, contra uma média de 12 a 20 cabeças/ha/ano, obtida pelos criadores, com outras forrageiras e, ainda assim, necessitar somente de 5 a 6 aplicações/ano de anti-helmínticos, contra 10 a 12 usualmente utilizadas pelos pecuaristas.

Dessa maneira o capim aruana mostra-se como uma excelente alternativa, senão a ideal, para pastejo com ovinos, desde que em condições adequadas de manejo, solo e clima, podendo a sua utilização, contribuir significativamente para que a ovinocultura firme-se cada vez mais como alternativa de viabilização sócio-econômica para a pequena e média propriedade rural no estado de São Paulo.

 

Programa de seleção de ovinos para torná-los geneticamente superiores

O Instituto de Zootecnia, em Nova Odessa - SP, desenvolve um programa de seleção de ovinos das raças Suffolk e Ile de France, ambas para corte, dando ênfase à avaliação direta do animal, que são: peso ao nascer, peso ao desmame que ocorre por volta dos 50-60 dias, velocidade de ganho de peso, conformação da carcaça e características raciais. Outro tipo de avaliação é a indireta quando observa-se os filhos desse animal até a segunda geração.

Através dela pode-se perceber a capacidade de transmissão do potencial zootécnico.

As fêmeas passam pelo mesmo programa de seleção, onde são observados os atributos direto e indireto e os de reprodução que são fertilidade (capacidade da ovelha produzir crias) e prolificidade (tamanho da prole - neste caso seleciona-se aquelas que tem maior possibilidade de ter parto múltiplo). Essas características são herdadas geneticamente.

Assim, através da seleção dos ovinos, tem-se um melhoramento genético, que passa de geração a geração, tornando esse animal mais produtivo, mais caracterizado na raça e também mais precoce. Ou seja, ele se desenvolve e ganha peso rapidamente a ponto de ser abatido em menor tempo. A seleção de filhas de parto múltiplo é interessante para a produção de cordeiros para abate na região sudeste. Além do fator genético do animal, a existência da variável ambiente (alimentação, manejo e sanidade) também deve ser levada em consideração.

 

Sistema de manejo de ovelhas a pasto

O Instituto de Zootecnia possui um sistema de manejo de ovelhas em que as matrizes ficam a pasto. Entretanto, esse pasto possui um capim de alto valor nutritivo, o aruana. É um cultivar de Colonião desenvolvido nas instalações do IZ especialmente para suprir as necessidades do animal e também para facilitar o controle de verminoses, visto que os ovinos são suscetíveis a vermes. Esse fato é essencial para a saúde pública pois com esse capim a carne que chega ao consumidor não possui tantos resíduos tóxicos de produtos vermífugos. A necessidade de vermifugação gira em torno de até 12 vezes/ano. Outra vantagem do sistema é o crescimento acelerado. Por esse motivo pode-se colocar de 30 a 35 cabeças/hectares/ano, fazendo dobrar o lucro de vendas. Outras vantagens são o valor nutritivo; a elevada produtividade;o hábito entouceirado; propagado em sementes (facilita o plantio e possui menor custo). O capim arana vem sendo utilizado há anos no IZ em pastejo rotacionado com ovinos e, nesse período, conseguiu-se bons resultados com fêmeas em gestação ou em crescimento.

O IZ trabalha atualmente com um software denominado Sistema de Gerenciamento de Rebanhos Ovinos (SIGRO) onde pode-se cadastrar o plantel com todos os dados do animal, tais como: ficha de controle do plantel ativo e do arquivo morto; ficha individual; desempenho ponderal (peso ao desmame) e reprodutivo; datas para pesagem pós-desmame; coberturas sem prenhez; datas prováveis de parição; estatísticas e outras.

Os animais que são considerados fortes candidatos a ter uma descendência de alto valor genético costumam participar de exposições com julgamento. O IZ, com o intuito de agilizar a transferência da tecnologia para o produtor e mesmo para estar em sintonia com as necessidades do criador, sempre participa com seus animais.

Isso vem provar que selecionando-se direta e indiretamente e com o manejo simples, mas correto, estaremos melhorando geneticamente a progênie e esta estará cada vez mais perto de contar com grandes reprodutores da raça.

 

Fonte: www.sna.agr.br